COP 30: Crise Climática intensifica a escassez de água – Escândalos da Nestlé relacionados à água
IBFAN | 12/11/2025
Secas severas e crescentes causadas pela crise climática agravam a escassez de água e a poluição ambiental. À medida que a COP 30 se inicia no Brasil, a Declaração da IBFAN “Nestlé Water Scandals” denuncia a exploração de recursos hídricos escassos com fins lucrativos.
Empresas de água engarrafada, como a Nestlé, extraem e esgotam preciosas reservas subterrâneas de comunidades em todo o mundo. Esse negócio lucrativo também gera grandes quantidades de resíduos contaminados por microplásticos.
A Declaração da IBFAN traz informações adicionais solicitadas durante reunião com duas Diretoras da UNESCO, na qual a IBFAN expressou preocupação com a parceria do organismo com a Nestlé.

Declaração da IBFAN
Novembro.2025
Escândalos da Nestlé relacionados à água
O direito humano à água potável segura foi reconhecido pela primeira vez pela Assembleia Geral da ONU e pelo Conselho de Direitos Humanos como parte do direito internacional vinculativo em 2010 (ONU, 2010)
Quando uma empresa como a Nestlé aparece e diz: ‘Pure Life é a solução, estamos vendendo a você sua própria água subterrânea enquanto nada sai das suas torneiras, ou se sai, é imprópria para consumo’ – isso é mais do que irresponsável, é praticamente um crime.”
— Maude Barlow, ex-conselheira-chefe da ONU para Assuntos Hídricos
Nestlé em Crise
A Nestlé, maior empresa de alimentos industrializados do mundo, enfrenta há décadas críticas e boicotes por violações de direitos humanos — e agora vive uma crise profunda. O valor de suas ações caiu mais de 30% desde 2022, e o novo CEO, Philipp Navratil, anunciou uma reestruturação alegando que a empresa precisa “mudar mais rápido” para se manter competitiva no mercado global.
A empresa pretende cortar 16 mil empregos nos próximos dois anos (5,8% de seus 277 mil funcionários), separar sua divisão global de águas e bebidas premium em uma empresa independente e concentrar-se em produtos com “maior potencial de retorno”. Já vendeu seus ativos de água engarrafada na América do Norte (avaliados em 5 bilhões de dólares) e encerrou operações de produção e P&D de fórmulas infantis na Irlanda.
A mídia de negócios costuma atribuir os problemas da Nestlé ao aumento de custos e à concorrência, em vez de reconhecer o dano reputacional causado por abusos de direitos humanos — especialmente no marketing de alimentos infantis, que rendeu à empresa o rótulo de “assassina de bebês”. Entre 50% e 70% de seu portfólio de cerca de 2.000 marcas são considerados ultraprocessados e não saudáveis. A Nestlé também enfrenta acusações de trabalho infantil escravo e impactos ambientais causados por poluição plástica, agricultura intensiva, tecnologias de risco, monoculturas e apropriação de terras e mares.
Este documento foca especificamente no negócio de água engarrafada da Nestlé e na indignação das comunidades afetadas pela superexploração e uso ilegal de tratamentos não autorizados.
A IBFAN compartilha as preocupações quanto à erosão dos direitos trabalhistas resultante das demissões e reestruturações, mas ressalta que a história da Nestlé serve como alerta para formuladores de políticas públicas que permitem a influência de corporações transnacionais. A Nestlé promove parcerias “multissetoriais” justamente por saber que tais arranjos abrem espaço para atrasar, enfraquecer e impedir regulações essenciais. A experiência mostra que os supostos “benefícios econômicos” podem desaparecer de um dia para o outro.
Violação de Direitos de Povos Indígenas e de Terras Tradicionais
Durante secas severas, a extração, privatização e revenda de milhões de litros de água engarrafada pela Nestlé representam uma ameaça existencial e violam o direito humano à água potável segura, especialmente para comunidades indígenas que tradicionalmente protegem suas terras ancestrais. Em diversas regiões, comunidades foram obrigadas a restringir o consumo enquanto a empresa continuou extraindo. A extração da Nestlé tem sido associada à queda de níveis de água e à destruição de ecossistemas locais.
Entre 2000 e 2025, a Nestlé esteve envolvida em inúmeros escândalos ligados à extração de água, especialmente em comunidades indígenas do Brasil, México, Canadá e Estados Unidos. A prática central consiste em extrair e comercializar água local considerada sagrada. Isso é uma questão moral, ética, de direitos humanos, territoriais e hídricos.
Relatórios documentam danos à terra e à saúde humana, e comunidades resistem com protestos, bloqueios e ações judiciais.
Exploração do Sul Global
As atividades da Nestlé no Paquistão e na Nigéria contribuíram para a escassez hídrica em comunidades próximas às suas fábricas. Enquanto lucra bilhões, a Nestlé deixa milhões sem água limpa. No Paquistão, auditoria do Supremo Tribunal em 2018 constatou que a empresa extraiu bilhões de litros de água entre 2013 e 2017 sem pagar ao governo. Na Nigéria, despejos irregulares de efluentes destruíram plantações e contaminaram o único riacho local.
Altos Níveis de Microplásticos
Pesquisas da Universidade Estadual de Nova York detectaram mais de 10 mil partículas plásticas por litro em garrafas de Nestlé Pure Life — o maior índice entre todas as marcas testadas. O estudo mostrou que 93% das amostras de água engarrafada apresentavam contaminação por microplásticos, cerca de o dobro da água de torneira.
Danos Ecológicos e Crises Humanitárias
Entre 2011 e 2025, a Nestlé foi denunciada por extrair água a custos irrisórios em Michigan (EUA), inclusive durante a crise de contaminação por chumbo em Flint. A empresa lucrou bilhões vendendo o mesmo recurso, enquanto famílias pagavam uma das contas mais altas do país por água tóxica.
Contaminação Fecal e Tratamento Ilegal
Em 2024, a Nestlé Waters França admitiu ter usado métodos proibidos (UV e filtros de carbono) em marcas como Perrier, Vittel e Contrex, disfarçando falhas sanitárias. A fraude levou à destruição de 2 milhões de garrafas, multa de €2 milhões e investigação criminal. O Senado francês revelou que o governo sabia das práticas desde 2021.
Recorde de Contaminação por Microplásticos e Descarte Ilegal
Em 2025, investigadores franceses descobriram aterros ilegais contendo resíduos plásticos e entulhos próximos a instalações da Nestlé na região de Vosges. A contaminação em marcas como Contrex e Hépar chegou a ser até 1,3 milhão de vezes maior que em rios e lagos. A empresa foi obrigada a provar a pureza de suas águas sob risco de perder o selo de “água mineral natural”.
Análise e Chamada à Ação
A Nestlé engana consumidores ao vender produtos sob marcas idealizadas, como Pure Life, rotulados como “água mineral natural”, embora passem por processos de desinfecção semelhantes à água de torneira — vendida a preços até 400 vezes maiores.
A gestão da Nestlé Waters demonstra um padrão recorrente de priorizar o lucro em detrimento da sustentabilidade ambiental, da saúde e da transparência.
Diante das denúncias apresentadas, a IBFAN reforça seu apelo para que consumidores, governos e instituições adotem salvaguardas rigorosas contra conflitos de interesse e recusem patrocínios de empresas que violam direitos humanos e agravam a degradação ambiental.
A IBFAN também convida todos a aderirem ao boicote internacional aos produtos Nestlé, vigente há décadas.
Chamada à Ação
A gestão da Nestlé Waters em seu negócio de água engarrafada demonstra um padrão recorrente de atuação que prioriza o lucro em detrimento da sustentabilidade ambiental, do cumprimento das normas regulatórias e da saúde humana.
Diante das preocupações apresentadas neste informe, a IBFAN reforça seu apelo para que consumidores e instituições adotem salvaguardas rigorosas contra conflitos de interesse e recusem patrocínios da Nestlé e de outras corporações que violam direitos humanos e agravam a degradação ambiental.
Conclamamos também todas as pessoas a se unirem ao boicote aos produtos Nestlé, que a IBFAN mantém há décadas.
Declaração da IBFAN – Escândalos da Nestlé relacionados à água
– novembro/2025 –
Download do relatório completo (PDF) – em inglês
Sobre a IBFAN
A Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar – International Baby Food Action Network (IBFAN) é uma coalizão global de mais de 300 organizações da sociedade civil que atuam em 114 países para proteger a saúde materna, infantil e de crianças pequenas contra a desinformação comercial.
A alta mortalidade de bebês alimentados com mamadeira na década de 1970 motivou ações de acionistas, processos judiciais, um boicote de consumidores e uma audiência no Senado dos EUA sobre as práticas de marketing da indústria de alimentos infantis.
Uma reunião conjunta da OMS/UNICEF em 1979 recomendou um código internacional para regulamentar a comercialização de produtos para alimentação infantil. Desde então, a IBFAN trabalha para ajudar os governos a incorporar esse código à legislação, protegendo, apoiando e promovendo o aleitamento materno e a alimentação complementar saudável.
